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terça-feira, 29 de abril de 2014

Brasil celebra os 100 anos de Dorival Caymmi.


Baiano apaixonado pelo Rio, compositor ajudou a traçar os rumos da música brasileira
Baiano de Salvador, com sua voz e seu violão, ele modernizou a MPB a partir de seus cantos do mar e do samba-canção, influenciando a bossa nova, a tropicália e tudo o que veio depois. Legou aos três filhos sua musicalidade e viveu 94 anos ricos em criação. Como sentenciou Caetano: “Escrevi 400 canções e Dorival Caymmi 70. Mas ele tem 70 canções perfeitas e eu não.”
Em 2014 o Brasil celebra os 100 anos de Dorival Caymmi, nascido em 30 de abril de 1914. Mais do que um elo perdido entre Ary e Tom, Dorival cobriu uma infinidade de estilos, paisagens e horizontes. Só o ciclo do mar já o tornaria imortal. O Mar, Quem vem pra beira do mar, A jangada voltou só, Noite de temporal, História de pescadores — são cantos de exaltação e de tragédia: o mar que traz o sustento ao pescador, de repente se transforma no seu túmulo. Mas Caymmi acha sempre um consolo, como no clássico É doce morrer no mar, com letra de Jorge Amado; ou na bela marcha-rancho Canção da partida.
Na conexão baiana, entra ainda o candomblé. Esse culto afro-brasileiro juntou o eclético Dorival, com o comunista Jorge Amado, o pintor argentino Carybé e o cosmopolita diplomata, poeta e letrista Vinicius de Moraes. Caymmi dedicou a Yemanjá canções como Dois de fevereiro, Sargaço mar, Promessa de pescador; e compôs a famosa Oração de Mãe Menininha.
Tudo isso vem da Bahia, como o próprio Caymmi. Seu bisavô, um engenheiro italiano, veio ao Brasil trabalhar nos reparos do Elevador Lacerda. O pai de Dorival, funcionário público, tocava piano, violão e bandolim. A mãe, dona de casa, mestiça de portugueses e africanos, ficava em casa cantando o dia inteiro. Ouvindo discos de 78 rotações na vitrola, o menino sonhava em ser compositor.
Em 1938, já no Rio, com 24 anos, cantando na Rádio Tupi, Caymmi compõe O que é que a baiana tem?. Gravada em duo com Carmen Miranda, a canção figurou no filme nacional Banana da Terra (1939) e tornou-se um trampolim para a carreira internacional de Carmen.
Caymmi encontrou o filão principal na Bahia, em temas como Samba da minha terra, São Salvador, Saudade da Bahia, Você já foi à Bahia?. Descreveu também, como poucos, a sensualidade da baiana, em canções como Lá Vem a Baiana, O dengo que a nêga tem.

Morador do Rio de Janeiro a maior parte de sua vida, Caymmi inovou a canção de amor urbana. Seu samba-canção moderno abriu caminho para a bossa nova. Simples e direto, ia ao cerne da questão: o sentimento. Por exemplo, Só Louco: “Só louco/ amou como eu amei/ só louco/ quis o bem que eu quis.”).


No bonito Sábado em Copacabana, parceria com Carlos Guinle, exalta seu bairro carioca favorito. Sutil comentarista da guerra dos sexos em suas canções, Caymmi viveu um casamento feliz de 68 anos, com a mineira Adelaide Tostes, conhecida como Stella Maris. E morreram quase juntos, em 2008, ela dez dias depois dele.
Cantor-mor do mar, Dorival Caymmi não sabia nadar. Se afogaria até nas águas rasas da lagoa de Abaeté. Como dizia o cineasta Billy Wilder, ninguém é perfeito. Mas Caymmi chegou, como poucos, milimetricamente perto da perfeição.


Fonte: Roberto Muggiati, especial para a Gazeta do Povo

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